Meditação

Meditar altera fisicamente seu cérebro

Meditação altera o cérebro humano
Escrito com carinho por rodrigocsilveira

Em um ritmo muito mais lento do que a fé popular, a ciência tem desvendado práticas milenares, traduzido seus benefícios para linguagens, digamos, mais bem aceitas no ocidente. A medicina é um dos grandes exemplos disso, e tem reverenciado cada vez mais o conhecimento tácito de antigas culturas, incorporando-o com muito sucesso em suas abordagens clínicas.

Um caso que merece toda a atenção da comunidade de praticantes de yoga e meditação é o da neurocientista  Sara Lazar, do Massachusetts General Hospital e Harvard Medical School. Ela foi uma das primeiras cientistas a analisar os efeitos da meditação no cérebro humano, e trouxe à luz descobertas e avanços significativos (para não dizer surpreendentes).

Sara Lazar pesquisa os efeitos da meditação no cérebro

Sara Lazar pesquisa os efeitos da meditação no cérebro. (Foto: Melanie Rieders)

Sara Lazar: o encontro da pesquisadora com a meditação

Se você acredita que devemos aprender com os tropeços da vida, ficará satisfeito com o início dessa história. Enquanto treinava para a maratona de Boston, Lazar sofreu uma pequena lesão que a levou ao consultório médico e, como parte do tratamento, que incluía a recomendação de alongamentos, decidiu que iria se inscrever em uma escola de yoga.

Praticando yoga como uma forma de terapia física, a neurocientista teve seu primeiro contato com os ásanas (posturas), mantras e, especialmente, com a meditação.

“Eu comecei a perceber que era algo muito poderoso, que tinha benefícios reais, então fiquei interessada em saber como aquilo funcionava.”

Estudos ligam meditação à saúde do cérebro

Para respondê-la, o professor de yoga fez todos os tipos de alegações sobre os benefícios da prática, falou sobre desenvoltura física, mas também sobre aspectos emocionais, como o aumento da compaixão, do amor próprio e do aprofundamento espiritual, independente de crenças ou religiões. A cientista só pensava “Blah, blah, blah, eu estou aqui para alongar”. Mas não levou muito tempo para ela se notasse mais tranquila, calma e confiante.

“Eu estava mais preparada para lidar com situações difíceis, estava mais compassiva e de coração aberto, podia ver as coisas do ponto de vista dos outros”

Tendo despertado sua curiosidade científica, Sara fez uma pesquisa bibliográfica da ciência e encontrou evidências de que a meditação estava sendo associada à diminuição do estresse, diminuição da depressão, ansiedade, dor e insônia, e ao aumento da qualidade de vida.

Nesse ponto, a médica cientista estava cumprindo seu PhD em biologia molecular e sentiu-se convencida a ajustar a rota de seus estudos para pesquisar esse tema como uma tese de pós-doutorado.

Grupo de Meditação

Quando decidiu que pesquisaria sobre meditação e os efeitos da prática no cérebro, Sara Lazar, a cientista lesionada por uma corrida, alcançou uma perspectiva que iria transformar não só a sua vida, mas a de todos nós: a de que a meditação pode literalmente mudar seu cérebro.

Como funcionou a pesquisa

O primeiro estudo analisou os meditadores experientes versus um grupo de controle. Foi descoberto que os meditadores experientes têm uma maior quantidade de matéria cinzenta na ínsula e regiões sensoriais do córtex auditivo e sensorial. O que faz todo sentido. Quando você está consciente, você está prestando atenção à sua respiração, aos sons, à experiência do momento presente, e reduzindo a cognição, seus sentidos ficam mais aguçados.

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Também descobriu-se que eles tinham mais matéria cinzenta no córtex frontal, que está associada à memória de trabalho e à tomada de decisões executivas. É bem documentado que nosso córtex encolhe à medida que envelhecemos – tornado-se mais difícil entender e lembrar das coisas -, mas nesta região do córtex pré-frontal, meditadores com 50 anos de idade apresentaram a mesma quantidade de matéria cinzenta de jovens de 25 anos.

Para validar a pesquisa, foram reunidas pessoas que nunca tinham meditado antes, as quais participaram de um programa de redução de estresse baseado em práticas meditativas de atenção plena, com duração de 8 semanas.

Quais foram os resultados encontrados

Após oito semanas do programa, foram encontradas diferenças no volume cerebral em cinco regiões diferentes nos cérebros nos dois grupos. No grupo que aprendeu meditação, foi registrado o espessamento em quatro regiões:

  1. A principal diferença se deu no cingulado posterior, que está envolvido em divagações mentais, e auto relevância.
  2. O hipocampo esquerdo, que auxilia na aprendizagem, cognição, memória e regulação emocional.
  3. A junção temporo parietal, ou TPJ, que está associada à tomada de perspectiva, empatia e compaixão.
  4. Uma área da haste do cérebro chamada de Pons, onde uma grande quantidade de neurotransmissores reguladoras são produzidos.

A amígdala, parte do cérebro ligada às ideias de “lutar” ou “fugir”, que é responsável pela a ansiedade, medo e estresse em geral, diminuiu de tamanho significativamente no grupo que passou pelo programa de redução de estresse baseado em meditação de atenção plena. A mudança na amígdala também se correlacionou com uma redução nos níveis de estresse.

Quanto tempo alguém tem que meditar para começar a sentir as mudanças?

Os dados trabalhados pelo grupo de pesquisa de Sara mostraram que as mudanças no cérebro começam a aparecer após oito semanas em um programa de redução de estresse baseado na meditação de atenção plena, onde os participantes faziam uma aula semanal e  foram orientados a praticar por 40 minutos por dia em casa.

“Algumas pessoas praticavam 40 minutos praticamente todos os dias. Algumas pessoas praticavam menos. Alguns apenas um par de vezes por semana.Em meu estudo, a média foi de 27 minutos por dia. Ou cerca de meia hora por dia.”

O que a ciência conclui sobre a prática da meditação

Ainda que se busquem ‘descobertas definitivas’, que nos ajudem a tomar decisões práticas sobre o que fazer para prolongar a vida ou mantê-la saudável, na ciência nada é conclusivo, nenhum assunto se esgota.

A relação da meditação com a atividade cerebral, comportamento, saúde e qualidade de vida, está ainda germinando, e em seu primeiro estágio já revela benefícios mais do que razoáveis. O estudo de Sara nos encoraja a praticar a meditação não só pelo bem estar e pelos benefícios tácitos, mas também pela certeza de um aprimoramento neurológico.

Nas palavras da própria cientista, a conclusão se dá da seguinte forma:

“Meditação é como exercício. É uma forma de exercício mental, treino da mente, realmente. E assim como o exercício aumenta a saúde, ajuda-nos a lidar com o estresse melhor e promove a longevidade, meditação pretende conferir alguns desses mesmos benefícios. Mas, cientificamente, ainda é cedo para tentar descobrir o que a prática pode ou não pode proporcionar. Parece ser benéfico para a maior parte das pessoas. A coisa mais importante se você quer tentar, é: encontrar um bom professor. Porque é simples, mas também complexo. Você tem que entender o que está acontecendo em sua mente. Um bom professor é fundamental.

Eu venho praticando há 20 anos, por isso teve uma influência muito profunda em minha vida. É muito fundamental. Estresse foi reduzido, me ajuda a pensar com mais clareza. É ótimo para relações interpessoais. Eu tenho mais empatia e compaixão pelas pessoas.”

E você, como foi sua primeira experiência com a meditação? Hoje você é capaz de sentir os impactos da prática meditativa? Comente!
*As aspas da neurocientista Sara Lazar foram extraídas de uma entrevista publicada no Washington Post.

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